800 anos do Cântico das Criaturas

Rubem Perlingeiro
Rubem Perlingeiro
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Rubem Perlingeiro
(outubro de 2025)

Neste ano (2025), celebram-se os 800 anos do Cântico das Criaturas, considerado a
primeira obra da literatura italiana e uma das mais belas expressões de espiritualidade
ecológica de todos os tempos.
Composto por São Francisco de Assis (iniciado em 1225 e finalizado em 1226), o
Cântico das Criaturas celebra a fraternidade universal e a presença divina em cada ser
criado. Francisco chama o sol de irmão, a lua de irmã, e até a morte corporal é
fraternalmente acolhida como parte do grande mistério da vida. Ele não via as
criaturas como meros recursos, mas como irmãos e irmãs.
O Cântico das Criaturas foi a fonte de inspiração para a Encíclica Laudato Si’, do Papa
Francisco, e para a Campanha da Fraternidade de 2025.
O Cântico nos lembra que nós, seres humanos, somos dependentes dos elementos da
criação. Com seu respeito pelas criaturas de todos os tipos, como o sol, a lua, as
estrelas, a água, o vento, o ar, o fogo e a terra, Francisco louva a Deus por intermédio
de sua criação. Cada elemento, por menor que seja, tem importância e a luz brilha
através da mais humilde das criaturas.
Sobre o sol e o fogo, Francisco dizia:
“De manhã, quando nasce o sol, todos deveriam louvar a Deus que criou esse
astro, por meio do qual nossos olhos são iluminados durante o dia. E no final da
tarde, quando desce a noite, todos os deveriam louvar a Deus por aquela outra
criatura: o irmão Fogo, por meio do qual os nossos olhos são iluminados
durante a noite.”
As palavras de Francisco, já quase totalmente cego, são vibrantes, demonstrando uma
alma generosa que é capaz de continuar a amar a luz mesmo sem vê-la.
Inicialmente, o Cântico se fechava com o louvor à criação, mas Francisco acrescentou
uma estrofe quando soube que o prefeito de Assis e o bispo estavam em conflito:
“Louvado sejas, meu Senhor,
pelos que perdoam por teu amor,
e suportam enfermidades e tribulações;
Bem-aventurados os que sustentam a paz,
que por ti, Altíssimo, serão coroados.”

Para Francisco, que privilegiara o amor ao próximo, a paz e a concórdia, assistir àquela
disputa lhe trazia uma profunda tristeza. Pediu então ao bispo e ao prefeito que se
reunissem no pátio do palácio episcopal, e a seus frades que cantassem o Cântico das
Criaturas, complementado com a nova estrofe do perdão. A apresentação sensibilizou
os dois antagonistas, que pediram desculpas um ao outro.
Vivemos tempos desafiadores. A pobreza, as guerras, os desastrosos efeitos da crise
climática, a destruição das florestas, a perda da biodiversidade, a escassez de água, a
poluição urbana e a degradação ambiental afetam milhões de vidas.
Que o Cântico das Criaturas, do alto dos seus 800 anos, possa, como um farol, iluminar
nossos caminhos e nos guiar na direção de dias melhores.


Cântico das Criaturas (São Francisco de Assis)


Altíssimo, onipotente e bom Senhor,
teus são o louvor, a glória, a honra
e toda a bênção.
Só a ti, Altíssimo, são devidos.
E homem algum é digno de te mencionar.

Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o senhor irmão Sol,
que clareia o dia e com a sua luz nos alumia.

E ele é belo e radiante, com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas,
que no céu formaste claras, e preciosas, e belas.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Vento,
pelo ar, ou nublado ou sereno,
e todo o tempo pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Água,

que é muito útil, e humilde, e preciosa, e casta.

Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Fogo,
pelo qual iluminas a noite,
e ele é belo, e jucundo, e vigoroso, e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
por nossa irmã, a Mãe Terra,
que nos sustenta e governa,
e produz frutos diversos
e coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelos que perdoam por teu amor,
e suportam enfermidades e tribulações;

Bem-aventurados os que sustentam a paz,
que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,
por nossa irmã, a Morte corporal,
da qual homem algum pode escapar;

Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar conformes à tua santíssima vontade,
porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças,
e servi-o com grande humildade.

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