Rev. Keizo Doi
Monge Regente do Templo Shin Budista de Brasília
No Budismo, ser humano é apenas uma entre outras condições. A depender dos nossos carmas, ou seja, dos nossos próprios atos, do modo como agimos, a depender daquilo imaginamos, pensamos e falamos, essa condição muda. As condições da existência, para o Budismo, variam entre celestial, infernal, animal, faminta, humana e bélica.
Segundo o Sutra do Maha Parinirvana do Budismo Mahayana, as ações que condicionam o ser humano são envergonhar-se e arrepender-se.
Há dois Darmas puros que salvam todos os seres: o primeiro é envergonhar-se; o segundo é arrepender-se. Envergonhar-se é algo que ocorre internamente, diante de nós mesmos; arrepender-se é algo que se expressa diante de outros.
Envergonhar-se se refere a não cometer mais ofensas, e arrepender-se à função de instruir outros a não cometerem ofensas.
Envergonhar-se diante dos seres humanos. Arrepender-se diante das divindades.
Isso é envergonhar-se e arrepender-se. Sem essas ações, os seres vivos não se denominariam humanos, mas animais.
É oportuno recordar que neste ano se celebra 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial. Estima-se que em Hiroshima, Japão, no dia 6 de agosto, às 8:15, cerca de 90 mil pessoas foram mortas no momento da explosão nuclear. Meu avô não encontrou sequer as cinzas da sua esposa para dar a devida destinação. Até final do ano de 1945, por volta de 140 mil pessoas morreram por conta da radiação e suas consequências.
A luz e o estrondo, nunca vistos, destruíram a cidade, eliminando qualquer sinal de vida das pessoas próximas à explosão. Meu avô, Fukuichi Kawamoto, não conseguiu encontrar as cinzas de sua esposa, Tsuyako. Ao descobrir as cinzas da sexta filha, debaixo do entulho de sua casa, ele suspirou e disse: ela me aguardava aqui.
Na redondeza de seu bairro, havia o corpo de um estrangeiro. Era um sargento norte-americano capturado em combate, dez dias antes daquele 6 de agosto. Hoje, sabe-se que ele se chamava Hugh H. Atkinson, morto pela radiação nuclear, aos 26 anos. Vale ressaltar que a bomba atômica matou 13 soldados norte-americanos que haviam sido capturados.
Para as pessoas sobreviventes de Hiroshima, o corpo do jovem norte-americano era o corpo de um diabo assassino.
Meu avô, no entanto, resolveu enterrá-lo. E homenageou-o, oferecendo diariamente incenso em seu túmulo, durante dois anos. A prática distinta daquele sobrevivente virou assunto de algumas matérias jornalísticas, por meio das quais vim a saber da história.
Nenhuma matéria, porém, explicou-me satisfatoriamente o estranho ritual do meu avô. Juntando alguns fragmentos do fato aos quais tive acesso, passo então a imaginar o motivo pelo qual um cidadão de Hiroshima enterrou o corpo de um sargento norte-americano.
Suponho que o meu avô visse a sombra da sua esposa por trás do corpo solitário do sargento estrangeiro, que morrera isolado da família. A solidão da sua esposa, cujas cinzas ele nunca encontrou, era a mesma solidão do jovem norte-americano que deixara em casa uma esposa e a uma filha. O vazio que tomou conta de meu avô era o mesmo que se abatera sobre a família do sargento ao receber a notícia de seu óbito, de seu desaparecimento.
O sentimento que meu avô vivia, em solidão, deveria ser manifesto ao realizar aquele enterro. O mesmo rito com o qual não pôde homenagear sua esposa. Ele guardava, em casa, as botas de couro do sargento, para que um dia pudesse entregar à família dele.
Hoje, 80 anos depois, a despeito de toda evolução que possa ter ocorrido, o mundo encontra-se cada vez mais inclinado para o conflito, para a guerra, para uma outra bomba atômica. Desta vez, haveria de ser dezenas de vezes mais potente que a aquela lançada sobre a cidade Hiroshima e seus moradores.
Ainda teremos de imaginar uma cena em que milhares de pessoas se evaporam literalmente num brevíssimo instante?
Será que ainda somos seres humanos? Em que momento desses últimos 80 anos fomos seres humanos?
Se há esperança, ela deveria ser cultivada no exercício daqueles Darmas que, segundo o Sutra, salvam todos os seres: envergonhar-se e arrepender-se.