Um conto muito conhecido no Budismo Shin é o do marinheiro perdido no oceano. Acredito que isso se deva ao fato de que ele capta bem o cerne da espiritualidade do Jodo Shinshu, que é a “mente confiante”, isto é, preocupar-se menos em tentar controlar a vida e confiar que ela nos fale e aponte o caminho.
Eis a história: ²
Um navio parte à noite, deixando o porto em que estava atracado. Depois de algum tempo, um marinheiro cai no mar. Ninguém nota sua ausência, e o navio segue seu rumo. A água está gelada, as ondas, agitadas, e o céu, escuro. O marinheiro esforça-se bastante para se manter na superfície. Começa, então, a nadar em direção a uma ilha que avistara antes de cair no mar. Como perde totalmente o senso de direção, não sabe se nada no rumo certo. Embora seja bom nadador, vai ficando cansado, e seus braços e pernas começam a fraquejar. Seus pulmões ficam exauridos, e ele respira ofegante.
O marinheiro sente-se perdido e inteiramente sozinho no meio do oceano. À medida que é tomado pelo desespero, sua energia se esvai como a areia de uma ampulheta, e ele passa a se engasgar com a água que bate em seu rosto, sentindo o corpo ser sugado para o fundo. Nesse instante, ouve uma voz vinda das profundezas do oceano:
“Solte-se! Abandone seu esforço! Você está bem do jeito que se encontra!”
Assim que ouve a voz, ele cessa o esforço inútil de nadar apenas por suas próprias forças e vira-se de barriga para cima, com as pernas estiradas, como se estivesse deitado numa rede em seu quintal, em uma preguiçosa tarde de verão. E fica exultante ao descobrir que o oceano o ampara e que pode flutuar sem qualquer esforço de sua parte. Nesse momento, sente a água morna e as ondas calmas. O oceano, que antes dava a impressão de que estava prestes a sugá-lo para o fundo, parece sustentá-lo.
Ele se sente grato e feliz por saber que está bem. Compreende, subitamente, que estivera bem o tempo todo. Apenas não sabia disso. O oceano não mudou em nada. Ao mudar seu modo de pensar, foi sua relação com o oceano que se transformou. O mar, antes um inimigo perigoso e assustador, passa a ser um amigo que o abraça e o ampara.
O marinheiro sabe, porém, que não pode ficar boiando para sempre no meio do oceano. A imagem de sua mulher e de seus filhos pequenos, esperando ansiosamente por ele em casa, o estimula a tentar alcançar a ilha. Ele, então, começa a nadar como antes, mas com uma diferença importante: passa a confiar no oceano. Sabe que, quando estiver exaurido, poderá deixar-se levar, pois o oceano o sustentará. Mais importante ainda: percebe que, enquanto nada, não é apenas o seu próprio poder que o mantém à tona, mas também o poder do oceano. Sim, ele se move para nadar, mas aprendeu que também pode, por algum tempo, simplesmente boiar, sem esforço.
Sentindo-se, então, seguro nos braços do oceano, o marinheiro consegue pensar melhor em como localizar a ilha que avistara. Estuda a posição das estrelas e da lua, bem como a direção do vento. Valendo-se de seus conhecimentos de navegação, põe-se a calcular onde estaria a ilha e segue em sua direção. Nada lhe garante que tenha escolhido o rumo correto, mas ele está certo de que o oceano não o deixará afogar-se e de que, em algum momento, alcançará a ilha.
Ao assistir à cena do filme Odisseia em que Odisseu consegue deixar a ilha na qual estava aprisionado por Calipso, depois de decidir construir uma jangada e lançar-se ao mar, sem pretender controlá-lo ou lutar contra ele e contra Poseidon, mas apenas confiando que o oceano o levará de volta a Ítaca, não pude deixar de associá-la ao conto do marinheiro perdido.
O marinheiro e Odisseu simbolizam nossa condição humana, muito bem elucidada por Buda ao compreender que “todos experimentamos o sofrimento”. Nossa reação natural é tentar “nadar para fora” da nossa aflição. Podemos ser fortes e bem treinados, mas, por mais que tentemos, nosso esforço solitário é inútil. Em determinado momento, somos chamados a abandonar as resistências e a confiar no oceano.
O resultado é uma mudança radical, por meio da qual passamos a conhecer a liberação, a alegria e a presença. No seio dessa transformação espiritual, chamada, no Budismo Shin, de “despertar da mente confiante”, somos tomados por uma sensação duradoura de bem-estar e por um desejo espontâneo de confiar no fluxo natural da vida, deixando que ela nos fale e aponte o caminho.
¹ Esse é o quadro “A Jangada de Odisseu” (“The Raft of Odysseus”), do pintor norte-americano Newell Convers Wyeth, pintado em 1929.
² Fiz uma pequena adaptação em relação ao texto original para facilitar a compreensão dos leitores que não estão familiarizados com o Shin Budismo. O texto original pode ser lido em TANAKA, Kenneth K., Oceano – Uma Introdução ao Budismo Jodo Shinshu, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 2020, pp. 21 a 23.