Abrir caminho

Rubem Perlingeiro
Rubem Perlingeiro
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Papa Francisco com lenço escoteiro azul

A terminologia típica do escotismo utiliza muito o vocábulo “caminho” como valor significativo na vida dos adolescentes, dos jovens e dos adultos. Gostaria de encorajar-vos então a prosseguir vossa vereda, que vos chama a percorrer a senda em família, na criação e na cidade. Caminhar abrindo caminho: caminhantes, e não pessoas errantes, não quietas! Caminhar sempre, mas abrindo caminho.

Abrir caminho em família

A família permanece sendo a célula da sociedade e o lugar primário da educação. E a comunidade de amor e de vida na qual cada pessoa aprende a se relacionar com os outros e com o mundo; e graças às bases adquiridas em família, é capaz de se projetar na sociedade, de frequentar positivamente outros ambientes educativos, como a escola, a paróquia, as associações… Assim, nessa integração entre as bases assimiladas na família e as experiências “externas”, aprendemos a encontrar o nosso caminho no mundo.

Todas as vocações dão os primeiros passos no seio da família e carregam sua marca pelo resto da vida… Para vós, pais cristãos, a missão educativa encontra um manancial específico no Sacramento do Matrimônio, pelo que a tarefa de criar os filhos constitui um autêntico ministério na Igreja. No entanto, não só os pais em relação aos filhos, mas também os filhos em relação aos seus irmãos e aos próprios pais, têm um certo compromisso educativo que consiste na ajuda recíproca para a fé e o bem. Às vezes acontece que, mediante o seu carinho e a sua simplicidade, uma criança se torna capaz de reanimar a família inteira. O diálogo entre os cônjuges, a escuta, o confronto recíproco são elementos essenciais para que uma família possa ser serena e fecunda.

Abrir caminho na criação

A nossa época não pode deixar de lado a questão ecológica, que é vital para a sobrevivência do homem; tampouco reduzi-la a questões meramente políticas. Ela, de fato, tem uma dimensão moral que implica todas as pessoas, de tal forma que ninguém pode se desinteressar por ela. Enquanto discípulos de Cristo, temos um motivo suplementar para nos unir a todos os outros seres humanos de boa vontade em vista da salvaguarda e da defesa da natureza e do meio ambiente. Efetivamente, a criação é uma dádiva que nos foi confiada pelas mãos do criador. Toda a natureza que nos circunda é criação como nós, criação juntamente conosco e, no destino comum, tende a encontrar no próprio Deus o seu cum­primento e a sua finalidade última; a Bíblia diz: “novos céus e nova terra” (c£ Is 65,17; 2Pd 3,13; Ap 21,1). Essa doutrina da nossa fé constitui, para nós, um estímulo ainda mais forte em vista de uma relação responsável e respeitosa para com a criação: na natureza inanimada, nas plantas e nos animais nós reconhecermos a marca do Criador, e em nossos semelhantes, a sua própria imagem.

Viver em contato mais estreito com a natureza, como vós o fazeis, requer não apenas respeitá-la, mas também o compromisso de contribuir concretamente para eliminar os desperdícios de uma sociedade que tende a descartar cada vez mais os bens ainda utili­záveis, e que podem ser oferecidos a tantos necessitados.

Abrir caminho na cidade

Vivendo nos bairros e nas cidades, sois chamados a vos tornar fermento que faz levedar a massa, oferecendo a vossa contribuição sincera para a realização do bem comum. É importante saber propor com alegria os valores evangélicos, num confronto leal e aberto com as diversas instâncias culturais e sociais. Numa sociedade complexa e multicultural, vós podeis testemunhar com simplicidade e humildade o amor de Jesus por todas as pessoas, experimentando também novos caminhos de evangelização, fiéis a Cristo e ao homem, que na cidade vive com frequência situações difíceis, e por vezes corre o risco de se extraviar, de perder a capacidade de ver o horizonte, de sentir a presença de Deus. Destarte, a verdadeira bússola que devemos oferecer a esses irmãos e irmãs é um coração próximo, um coração orientado, isto é, movido pelo sentido de Deus.

Estimados irmãos e irmãs, continuai a traçar o vosso caminho com esperança no futuro. A vossa formação de escoteiros é um bom treinamento! Recordemos São Paulo (cf. ICor 9,24-27); ele fala de atletas que se exercitam para a corrida mediante uma disciplina rígida, por urna recompensa efêmera; o cristão, ao contrário, treina para ser um bom discípulo missionário do Senhor Jesus, ouvindo assiduamente a sua Palavra, tendo sempre confiança naquele que nunca desilude, permanecendo com Ele em oração, buscando ser pedra viva no seio da comunidade eclesial.

Discurso proferido pelo Papa Francisco para os líderes adultos da AGESCI (Associazione Guide e Scouts Cattolici Italiani) em 08.11.2014, extraído do livro “O Evangelho da Vida Nova – Seguir Cristo, Servir o Homem”, Editora Vozes, 2015, p. 45 a 47.

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