(Rubem Perlingeiro)
Manchas brancas flutuam, brilhantes, no horizonte. Mais além, palmeiras – e um pequeno farol. Grande, redonda, há uma terceira – e outra, mais baixa, mais comprida, completa a cena. Quem as batizou as viu exatamente assim: Comprida, Redonda, Palmas e Cagarra. Junto a elas, duas ilhotas: Filhote da Cagarra e Filhote da Redonda.
Sim, são ilhas, a cinco quilômetros das areias de Ipanema e do Leblon. Ali vêm fazer seus ninhos as fragatas e os atobás-marrons. Por ali mergulham não garotas de biquíni, mas baleias-de-Bryde, baleias-jubarte e golfinhos-nariz-de-garrafa. Ali se alimentam tartarugas-verdes e tartarugas-de-pente. Há polvos, lagostas, cavalos marinhos e, claro, peixes de diferentes espécies, que acabam atraindo alguns praticantes de caça-submarina.
Esse arquipélago – tão perto, tão longe – ganhou o nome de Cagarras. Por quê? As manchas, que parecem neve, são cálcio. Para ser mais preciso, são os excrementos das aves marinhas.
Após se alimentarem, principalmente de peixes, as aves eliminam seus dejetos, ricos em cálcio, nas encostas rochosas, manchando-as de branco.
Não é curioso que aquilo que torna a ilha mais bonita e especial são as fezes desses animais?
É a natureza, com as suas transformações e o seu ritmo.
Mas, em que pesem a sua beleza e a sua importância para a biodiversidade, o que mais me impressiona nas Cagarras é outra coisa.
Tem-se a impressão de que elas se movem. Ao andar pelo calçadão e olhar para o mar, seja em Ipanema ou Leblon, o arquipélago parece que está sempre à nossa frente e à mesma distância. E, dependendo do ângulo, as ilhas ora se agrupam ora se afastam, aparentando se movimentar sobre as águas.
O Mestre budista japonês Dogen, em seu texto “Sermão das Montanhas e Águas”, escrito no ano de 1240, sustenta a tese de que as montanhas se movem (“não ouse duvidar do caminhar das montanhas apenas porque não se parece com o caminhar dos seres humanos”).
Talvez, ele estivesse certo.