Cadê os tatuís que estavam aqui?

Rubem Perlingeiro
Rubem Perlingeiro
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Nasci e cresci à beira-mar, e a praia sempre fez parte da minha vida. Como escreveu a poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, “Quando eu morrer voltarei para buscar/Os instantes que não vivi junto do mar” (se puder, eu também …)

A praia remete à minha infância. Por isso, é difícil ir à praia e não lembrar dos momentos que, no caso, vivi junto do mar quando criança.

Uma das minhas brincadeiras preferidas na praia era colher tatuís. O vaivém das ondas revelava tatuís aos montes formando vários pequenos buracos à beira-mar; eles se enterravam na areia, o que me levava a cavar para “pescá-los” com as mãos.

Passava um bom tempo perto da água cavando buracos e construindo barreiras para que a água, quando chegasse, não desmanchasse as escavações. Nunca fui muito de construir castelos de areia. Preferia os buracos, alguns com túneis subterrâneos para viabilizar a conexão, e neles colocava o meu “exército de tatuís”. Gostava de ver o deslocamento da tropa de uma trincheira para outra, mas a maioria dos tatuís se enterrava e desaparecia, indo, no meu imaginário, para a missão que havia sido a eles designada.

Anos depois, fui tentar repetir a brincadeira com os meus filhos. Foi possível cavar os buracos e construir as barreiras e os tais túneis subterrâneos.

Mas os personagens principais já não estavam mais lá. Os tatuís desapareceram. O meu exército foi exterminado.

Bioindicadores da saúde ambiental das praias e muito sensíveis à poluição, é um fenômeno raro encontrá-los atualmente. Correm sério risco de extinção, mas, como são feios, não entraram no nosso cardápio como os camarões, nem foram apadrinhados pela mídia ou por alguma ONG, pouca gente sabe disso. Não vi uma campanha “S.O.S. Tatuís” ou “Salve os Tatuís”. Ninguém ainda pensou em dar um abraço em São Conrado pela volta dos tatuís.

Será que as próximas gerações verão tatuís nas praias novamente ou somente saberão da existência deles pelos livros?

Para além da questão ambiental e da importância dos tatuís para o ecossistema marinho, gostaria de reencontrá-los, pois fazem muita falta nos instantes que vivo junto do mar. Afinal, quem combaterá o bom combate?

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