A minha vida e a da minha família nunca mais foram as mesmas depois de 1975.
Você lembra do que aconteceu em junho daquele ano?
Steven Spielberg lançou o filme “Tubarão”.
Foi um sucesso estrondoso. As filas nos cinemas dobraram quarteirões.
O filme inaugurou o conceito de “filme de verão” em Hollywood, mas também foi um divisor de águas na nossa relação com os seres humanos.
A partir dali o medo por tubarões e a caça indiscriminada aumentaram drasticamente. Passamos a ser fonte de pânico, terror e medo, quando, na verdade, nunca quisemos nada com vocês, que sequer estão no nosso cardápio, e que só mordemos por engano ao confundi-los com alguma espécie marinha, ou quando nos sentimos ameaçados.
Só para se ter uma ideia, no ano de 2023, foram registrados 69 incidentes envolvendo a gente e vocês, e dez foram fatais. Em contrapartida, vocês matam cerca de 80 milhões de tubarões por ano, sendo 25 milhões de espécies em extinção.
E o que é pior: os cineastas não se esquecem de nós. Volta e meia, saem novos filmes nos pintando como o “terror dos mares”. Só para citar dois exemplos mais recentes, em 2024, foi lançado o francês “Sob as Águas do Sena”, que mostra uma cientista que precisa superar um trauma do passado para ajudar a retirar um tubarão preso, imaginem, no rio que atravessa Paris (para aproveitar o “clima olímpico”), e “Desespero Profundo”, sobre uma viagem de férias que vira pesadelo quando um avião cai em um mar enfestado de tubarões.
Bem que Hollywood poderia produzir um filme sobre o “finning”, prática cruel por meio da qual nossas barbatanas são removidas e, em seguida, somos devolvidos ao mar e, claro, acabamos morrendo. Isso tudo porque, há mais de 2200 anos, um imperador chinês maluco achou que a sopa feita com a barbatana de tubarão o tornaria mais viril e, de uns tempos para cá, os chineses mais abastados resolveram imitá-lo.
Pouca gente sabe, mas vamos atrás de peixes considerados velhos, doentes ou lentos em uma população, mantendo essa população mais saudável e no tamanho adequado. Onde somos eliminados, o ecossistema perde o equilíbrio. Por isso, somos chamados de “médicos dos mares” (e não de “terror dos mares”) pelos outros peixes.
Com mais de 400 milhões de anos de história e tendo sobrevivido a cinco grandes extinções em massa, será que sobreviveremos aos seres humanos, que, além de nos caçarem, poluem os mares, acabam com a biodiversidade e aquecem o planeta? Daí eu me pergunto: quem deve ter medo de quem?