Quando Noé regressou de Belém depois de participar da COP-30, ele se convenceu de que não tinha mais sentido seguir fazendo o mesmo que antes, quando voltara das COPs anteriores.
Pois também dessa vez ele não logrou persuadir as pessoas a aderirem ao seu projeto. Os poucos que conseguiu abordar não ansiavam por nada além da tal transição energética justa, que não sabiam definir muito bem o que era. Diziam só que o processo de mudança da matriz energética atual para fontes limpas não pode prejudicar o desenvolvimento econômico nem deixar ninguém para trás e, no final, só falavam do tal “mapa do caminho”.
Todos se esquivavam quando Noé alertava sobre o dilúvio (sobre o “seu dilúvio”, como eles diziam), pois já tinham ouvido falar dele nas demais COPs.
Então, ele chegou em casa irado, rasgou as páginas do projeto que tinha preparado ao longo de anos de trabalho, jogando-as para Deus, e disse: “Pode ficar com elas”. “Trinta vezes”, queixou-se. “Dei prova de minha resiliência e fidelidade. Meus pés estão inchados, minha garganta está doendo, perdi tempo, dinheiro e tornei-me um estranho para a minha própria família de tanto viajar. Tudo porque não sou capaz de me conformar com o futuro que nos espera e procurei demonstrar que o dilúvio não é meu. E tomei Teu partido e disse a eles que também Tu, em Tua enorme paciência, queres vê-los salvos”.
“Mas a crise explodiu. Temos a maior temperatura que o planeta experimentou em 100 mil anos. Desde Adão e Eva, nunca chegamos nesse nível, em que todos os eventos climáticos se tornaram tão intensos e muito mais frequentes. São secas em todas as partes do mundo, tempestades, ressacas e incêndios. O projeto era claro: que os países se afastassem dos combustíveis fósseis e reconhecessem a urgência de reduzir rapidamente as emissões para manter 1,5°C de aquecimento ao alcance, mas não deu certo. Ninguém me escuta. O ano de 2024 foi o mais quente, 2025, o segundo, e o futuro próximo é ainda mais preocupante”.
Deus tranquilamente disse: “sei disso tudo, Noé, e reconheço tua dedicação e que és o único consciente que vejo diante de mim no meio desta geração. Acalma-te e constrói uma arca. Eis como a farás …”