(Rubem Perlingeiro)
Ele acordou cansado, tenso e triste na segunda-feira.
Dormiu mal à noite e não conseguia parar de pensar nos dois adolescentes que tinham morrido no dia anterior.
Domingo de sol, praia lotada. O mar estava revolto e perigoso para os banhistas. Dois rapazes ficaram presos numa corrente de retorno e se afogaram.
Diferentemente dos outros dias, a cabeça estava a mil e foi inundada por ideias ruins, que o levaram a navegar por águas perigosas.
Influenciado pelo falecimento dos dois jovens e, possivelmente, pelo artigo que lera alguns dias antes, que dizia que, na maioria dos dialetos angolanos, a palavra para a morte é a mesma que designa o mar, não parava de pensar nas perdas e fracassos que teve ao longo da vida.
Logo ele que sempre associou o mar à vida e ao bem-estar físico e mental, começou a relacioná-lo à morte.
Mesmo assim, ou talvez até por isso, sentou-se para meditar como fazia todas as manhãs.
No início, sentiu muita dificuldade para aquietar a mente. Não conseguia conter o fluxo de pensamentos negativos.
Aos poucos, foi distensionando. Lembrou que, quando o mar começa a ficar com muitas ondas, é natural que a gente pense que todo o oceano está agitado. Mas recordou também que, quando mergulhamos mais fundo, percebemos que apenas a superfície está turbulenta. Em águas mais profundas, onde o azul já não é tão claro, ele está muito, muito calmo. Lá embaixo, há uma extensão infinita de paz e tranquilidade, completamente alheia à turbulência que se sente no alto.
Da mesma forma, a superfície da mente pode estar agitada, ruidosa até, mas, lá no fundo, há um nível que está calmo e silencioso. O desafio é conseguir atingir esse nível, a calma das profundezas da mente, independentemente da turbulência que ocorre na parte de cima.
Com o passar do tempo, foi relaxando e se sentindo melhor, como tivesse voltado de um mergulho abissal, até um ponto repleto de quietude, onde o azul é mais escuro e há peixes maiores e mais raros.
Finalizou a meditação e seguiu para encarar o dia.